quinta-feira, 16 de julho de 2009

Desenhos em nuvens

Diferente das palavras,
as nuvens se arranjam sem pensamentos.

Havia me afastado delas e de seus desenhos,
mas já posso estar mais tranqüilo,
transbordando, as compreendo:
são meus, seus segredos.

Porque brinco com as memórias
como se concretamente fossem nuvens,
sempre se movendo
passando e ganhando forma.

Não me entenda errado, só sei de mim.
Falo com os arranjos que desejo,
que me levam, que me deixam.

Um mundo encantado sobre o concreto,
e brinco em sol com fogo brasa e fumaça,
fabricando o canto que você inventou pra mim.

A consistência me leva ao ar parado,
logo me vem a janela.
Agora,
o vento.
A vida,
incrivelmente bela.
O fim.

Melhor mesmo é calar
(há tantos poemas...),
cegaríamos nesses olhos azuis -
aprendêssemos escutar, talvez.


Céus,
um cordeirinho nos trazendo a salvação!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dialética

Engraçado o quanto é essencialmente desprovida de sentido primeiro a existência humana – e ela é toda sentido se movendo, precipitando, crescendo. Mas um buraco cobre o outro enquanto não se percebe o jogo de espelhos. Então reificamos, mediação alienada, e mesmo dando cabeçadas na parede, não reparamos a anterioridade material das coisas. Nossa epopéia de gigante, o sentido está hipotecado nessa tragicomédia que herdamos. Como resolveremos a contradição que socialmente se manifesta? Quando saldaremos a dívida para, enfim, terminar com essa história imbecil?

Heart - em defesa das ridículas cartas de amor.

Novas línguas, novos seios? Sim... a vida é cheia de novos aconchegos. Mas gostei de sua medida. E sinto-me ainda sob seu lixo, escutando seu ventre. Já fuxiquei diversos amores, sei dizer o quanto são falsos e sustentados por um medo brusco. Amor, sentimento puro? Há os que sustentam a pureza da paixão. Fracos. Amores fracos como o seu perdem a liga numa atmosfera de angústia, não sustentam a própria busca, patinam sobre si mesmos. É ainda mais propício dizer que não buscam, seguem o fluxo. Então é preciso brincar de estar sozinha como estando cheia de si e de amigas – ‘apenas sei que não te quero’, dizia enquanto me lambia. E é fácil que ela não sabia, mas insistiu até que fosse. E depois não teve mais espaço ou tempo ou vontade. As coisas batem do avesso de tão simples, reflexo na janela: portas fechadas, ruas abertas. Claro que não há dúvidas, não há dívidas, não há expectativas. Tudo morno, em banho-maria, como um deus sem ódio, como as novelas de família, como adormecer no sofá. Mas você ficou fria até que pudesse cortar, encostar trincar e fazer pó. Constrangedor.

Meu coração é minha casa, e sei que esse meu tema é digno de escárnio. Onde já se viu, em pleno século XXI acomodar-se nessa linguagem? É que tedia ser seco... Talvez devesse bater mais áspero e guardar o sentimento? Já me ensinaram: nessa selva de prazer, não diga nada, desfrute, aproveite, age naturalmente. Pele e corpo se entregam por inteiro. E se um dia aparecer uma mocinha muito quente querendo te aproveitar, aproveite – não importa quem seja. Mas eu não sou desse lugar, mesmo que quisesse. Sendo um exagero dramático, devo mais é ser sozinho. Por isso deveria aprender ser calado, sem mensagens, sem cartas, sem escritos. Vazio até de mim. Sou fraco, medíocre, uma idealização frustrada. Não consigo com esse glamour, com esses gliters, com essa alegria. Lembro daquelas propagandas que mexem com nossos sonhos, sou a mentira delas explicitada lembrando do seu vulto. Mas isso não me faz menos, apenas me mostra a hora errada, e pede calma. Perco o sono, sou uma piada. Meu coração guardou seu cheiro, ficou encantado. É um inocente. Não serve pra nada. Vive quebrado.

domingo, 28 de junho de 2009

Tirando casquinha

Eu notei, ela é explosiva. Carrega quilos de dinamite na barriga. Te manda à merda por um simples detalhe que passaria despercebido, não fosse ela tão petulante e orgulhosa. Às vezes lembra do Pequeno Príncipe e se acorda caçoando, dando risada alta. Nesses dias, envolve de suco gástrico qualquer coisa que não combina. Sai do quarto com seu óculos policial, e num clima blasé mostra para todos o quanto é independente e sozinha. E está bom assim. Mas não se agüenta tão séria, e logo escapa algum comentário idiota. É uma tiradora de sarro – sim, sarcasmo gástrico. Agora, se você, um dia, tiver o privilégio de escutar de perto o canto que tem os olhos dessa menina... terá cravado pra sempre em sua memória um doce relicário de melodias cor-de-rosa, com primaveras sorrindo e promessas de um romântico tempo de amor, daqueles antigos. E como sonha essa guria! Quer engolir as nuvens, sustentar o mundo numa tragada. Os sonhos crescem e se enroscam nos caracóis de seus cabelos embaraçados. Ela se debate, acende um cigarro, vai livre como a fumaça, se desmancha ao vento. Está apenas sendo. E por pouco não segura essa leveza passageira. É demasiadamente de carne e osso, não acha posição no sofá. Quer ser cazuziana. Mas ainda não saiu do casulo, está sentada na janela, aprendendo a voar. Eu notei quando toquei seu íntimo. É de casca grossa, por ser tão delicada. Então fugiu sem olhar pra trás...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ouro de mina

Ficou revirando entre dias, ruminando na barriga, esôfago. Empurrava pela garganta, enchia os brônquios e dissipava grave. Subia e descia naquela sensação de vômito. Às vezes saia até som, contração. Mas não saia. Vazio. Oco de falta abafada, suando frio. E já se passavam dias. A coisa estava ficando insuportável. Até que veio. Toda orgulhosa, se achando obra. Daí então pensei: ‘ninguém merece ver esse troço’ - e puxei a descarga. Estava leve outra vez. O vento retomou seu velho hábito de passar jovem e fazer carinho. Mas durou pouco. Eis que a campainha toca, o coração dispara. Abro a porta, ninguém. Volto para casa, encontro a geladeira aberta e gente que se disfarça no sofá. Fico sem ter onde cair morto. Meu estômago revira, ando de um lado para o outro. Não desocupam o banheiro. Perdi minha cama. A coisa ficou aguda. Do que essa obra tanto reclama? Acho que nasci com a sina do desassossego.

“Quiçá, um dia, a fúria desse front virá lapidar o sonho até gerar o som”

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sob o signo de seu nome

Pois quando fugi
(ou quando me expeliu pra noite fria)
soube que nasci embriagado,
que estava condenado.

Por isso, os passos cruzados e o sangue de vinho,
a alma colorida e a mediocridade vomitada na mesa.
O esquecimento e a alegria. A mentira. O desejo.

Sim,
no armário de coisas antigas
os poemas que me cravastes são dados por perdidos.
Mas ressurgem, letra por letra,
quando sua figura me assombra,
até formarem estrofes, imagens, novenas.

E enquanto invento seu nome, me doem os lábios,
me sagram as coxas, me cora a face –
um fio de prazer brota de dentro dos ossos, e
espalha-se sob seu domínio.

Hipnotizado,
me reencaminho ao eterno ninho,
onde o sonho me tira o sono,
e inocentemente brinco.


Sei que você não existe.

terça-feira, 16 de junho de 2009

"Se você for
exatamente como imagino,
igualzinho aos meus sonhos,
eu vou embora.
Detesto desmancha prazeres"

Marta Medeiros